segunda-feira, 7 de setembro de 2009

AULA DE RELIGIÃO: É POSSÍVEL ENSINAR FELICIDADE EM SALA DE AULA?

FILOSOFIA OU TEOLOGIA?




“... o negócio dos professores é ensinar a felicidade (...) o mestre nasce da exuberância da felicidade. E, por isso mesmo, quando perguntado sobre sua profissão, os professores deveriam ter coragem para dar a absurda resposta: Sou um pastor da alegria” Rubem Alves
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            Terminei o último post com a frase do professor Alexander Neill afirmando que o professor deve ser “o promotor da felicidade em sala de aula”, mas como promover a felicidade sem que antes se faça uma profunda análise sobre o seu verdadeiro significado?
            O filósofo catarinense Huberto Rohden* (falei sobre ele
aqui no blog no dia de finados do ano passado), dizia que só um homem autorealizado pode ser feliz, e que esta autorealização só pode ser conseguida pelo autoconhecimento, que na tradução da expressão sânscrita atman, significa o conhecimento de uma verdade interior (etimologia da palavra educação - Clique no link), do Eu verdadeiro, maiúsculo para dar um caráter divino à alma individual (“vós sois deuses” - Salmo 82:6 e João10:34).
           Nenhuma outra frase nos induz mais ao autoconhecimento do que as palavras de Jesus em Lucas 17.21: “O reino de Deus está dentro de nós”, e, só por este viés que entendo plenamente o sentido da palavra felicidade.
Para reforçar este argumento resumo o pensamento de três filósofos que viveram na Grécia antiga e que tinham visões distintas sobre o significado de felicidade: Epicuro, Diogenes e Zenon.

            O primeiro deles, Epicuro, tinha uma filosofia muito parecida com o que entendemos por felicidade aqui no ocidente, onde os valores materiais e todos os deleites que o dinheiro pode proporcionar norteia a vida das pessoas... O Hedonismo, que se fundamentava na concepção de que a felicidade estaria associada a todo tipo prazer (hedoné), valorizando o ego e a sensualidade. Era a filosofia do “ter tudo o que puder ter e gozar tudo que se puder gozar”.
            Já uma outra corrente, exatamente o contrário da primeira, mais identificada com a filosofia oriental, defendia o desapego total aos bens materiais e seu fundador, Diógenes, de Sínope, morava em um velho tonel no mercado de Atenas e seus únicos bens eram um alforje, um bastão e uma tigela, que simbolizavam o desapego e auto-suficiência perante o mundo. Era a filosofia do “não ter”, segundo a qual a felicidade não podia depender de “nada que o mundo pudesse nos tirar e não desejar nada que o mundo não pudesse nos dar"

                        É famosa a história de Diógenes saindo em plena luz do dia pelo mercado de Atenas, com uma lanterna acesa procurando por homens verdadeiros (ou seja, homens auto-suficientes e virtuosos).            
                       Outra história famosa de Diórgenes foi quando Alexandre, o Grande, rei da macedônia quis conhecê-lo por causa de sua Filosofia, e ao encontrá-lo tomando sol seminu no mercado de Atenas, perguntou-lhe o que poderia fazer por ele, e que atenderia qualquer pedido que lhe fizesse. Acontece que devido à posição em que se encontrava, Alexandre fazia-lhe sombra. Diógenes, então, olhando para o Sol, disse: "Não me tires o que não me podes dar!" 
                        A escola de Diógenes, os cínicos, fundada por Antístenes, negava o ego, a individualidade e o apego à matéria. Um exemplo disso, na filosofia oriental, é a vida de Shidarta Gualtama, o Buda, que abandonou todo o luxo em que vivia, o palácio e a família e partiu para o mundo em busca do conhecimento que o libertasse do sofrimento e conduzisse à felicidade ou, na ficção, em Caminho das Índias, a personagem de Lima Duarte, Shankar, se torna um "renunciante", um Sanyase. 
       
   Nestas duas antíteses estão basicamente os dois conceitos principais que se entende por felicidade, a filosofia ocidental e a filosofia oriental, a felicidade baseada no “ter” e a mesma felicidade fundamentada no “não ter”.
Apareceu então uma terceira escola filosófica, a de um grande gênio chamado Zenon, cujo conceito de felicidade não se baseava em objetos ou circunstancias , mostrando que a atitude do homem diante dos objetos é muito mais importante do que o próprio objeto, transferindo a causa da felicidade do “ter” ou do “não ter” (objetos) para o "centro" de tudo, o “ser” (sujeito), mostrando, como disse o escritor William Ernest Henley: "o homem é o senhor do seu destino e capitão de sua alma" * (IMPORTANTÍSSIMO CLICAR)..."não faça depender sua felicidade de algo que não dependa de ti". Se a minha felicidade depende de algum objeto e esse objeto não depende de mim, e sim de uma circunstância que sobre a qual não tenho nenhum controle, então nunca serei feliz.
                        Que nunca vai encontrar a felicidade em alo-realizações, o oposto da busca por autoconhecimento e autorealizações que, essencialmente, segundo o filósofo catarinense Huberto Rohden , "não diferem do que Jesus ensinou no “Sermão da Montanha”, que nada mais é do que buscar a felicidade dentro de si, cujo 'caminho das pedras', estão cristalinamente indicados em palavras como: 'pobres de espíritos', 'puros de coração', 'os mansos', 'os que sofrem perseguição por causa da justiça', 'os pacificadores', 'os misericordiosos', 'os que choram', 'os que amam os que os odeiam e fazem o bem a quem lhes fazem o mal'.
                        Mahatma Gandhi, que não era cristão, disse que se perdessem todos os livros sagrados da humanidade, e só salvasse o Sermão da Montanha... nada estaria perdido!"
                 Se a nossa escola pública não é confessional, então não necessita de aulas específicas de religião , eu, particularmente, prefiro chama-las de aula para "aprender a ser feliz", isto porque existe uma quantidade muito grande de religiões e crenças. e até quem não acredite em nenhuma delas, a questão não é concordar ou não com sua existência, mas na maneira como eu, particularmente, devo ministrá-las.
                        Deveria “puxar a sardinha para minha brasa” e defender aula de Ética”, já que em Filosofia, Ética está relacionada com o que é bom para o indivíduo e para a sociedade, e seu estudo contribui para estabelecer a natureza de deveres neste relacionamento. Certamente alguns educadores estariam preparados para ministrar estas aulas, mas prefiro que este "religare" com a nossa essência divina perpasse por todos os conteúdos e fique ao alcance de todo educador que tenha consciência de sua importância e imite o Prof. Neill promovendo-a em sala de aula.
30/07/2010: Pensamento que Nelson Mandela citava sempre para si nos 26 anos em que passou na prisão - filme "Invictus" (vi o filme esta semana), penúltimo parágrafo.

 ESTA VISÃO CÓSMICA DO EVANGELHO É UMA RELEITURA DO PENSAMENTO ILUMINADO DO FILÓSOFO BRASILEIRO HUBERTO ROHDEN  



SERMÃO DA MONTANHA - Cid Moreira

*

4 comentários:

Roseli Venancio Pedroso disse...

Oi Fernando! Adoro a maneira como você expõe as coisas. É um verdadeiro professor e, o verdadeiro professor, não dá somente o conteúdo de sua matéria. Dá um verdadeiro apanhado da vida e tudo o que ela representa. Assim é você amigo. Feliz de seus alunos que podem assimilar tudo o que você tráz à eles. Conhecimento, informação e formação. Parabéns!Ah, obrigada por suas palavras em meu blog. Esse é o grande diferencial que temos: amar o que fazemos.
Bjs

ANA PAULA disse...

Não criei uma comunidade como a Lorena, mas você foi o professor que ganhou mais comentários no meu Orkut... Veja lá:
http://www.orkut.com.br/Main#AlbumZoom?uid=12991321674782991247&pid=1238428753393&aid=1216910408$pid=1238428753393

Beth Vitória disse...

Professor...passei por aqui e gostei muito do que vi e li e aprendi no seu
bloguetando!!!!

Abraços.


Beth

Argentino Neto disse...

É necessário. Penso que a humanidade está carente de espiritualidade.
Estou aguardando uma visita sua. Para mim srá uma honra.
Felicidades.